ARTIGO PSJ

A pegada hídrica da Inteligência Artificial: o custo invisível por trás de cada pergunta

Portela Soluções Jurídicas

Escritório de Advocacia

Você sabia que usar ferramentas como o ChatGPT consome água potável?

O uso de inteligência artificial (IA) carrega um custo ambiental muitas vezes invisível: a chamada pegada hídrica da IA. Esse termo se refere à quantidade de água doce utilizada para operar e resfriar os data centers que mantêm esses sistemas funcionando.

Por que a IA consome água?

Sempre que você interage com um modelo como o ChatGPT, seus dados passam por servidores que:

· Processam grandes volumes de informação

· Armazenam dados em escala massiva

Esses servidores, localizados em data centers ao redor do mundo, geram altos níveis de calor. Para evitar superaquecimento, usam sistemas de resfriamento – muitos baseados em água potável. Em torres de resfriamento, até 80% dessa água evapora no processo. De acordo com uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia, estima-se que:

· Apenas 20 a 50 perguntas ao ChatGPT podem consumir até meio litro de água.

· Com centenas de milhões de usuários ativos, estima-se que o consumo semanal total possa ultrapassar 200 milhões de litros de água.

E isso sem contar o custo hídrico do treinamento dos modelos, que é ainda mais elevado e ocorre em um curto espaço de tempo, exigindo grande concentração de recursos.

O problema da origem da água

O impacto da pegada hídrica é ainda mais preocupante quando se considera de onde vem essa água.

Em muitos casos, os data centers estão localizados em regiões que já enfrentam escassez hídrica. O uso intensivo de água por parte da indústria de tecnologia pode acentuar o estresse sobre bacias hidrográficas locais, afetando comunidades e ecossistemas.

Enquanto isso, milhões de pessoas no mundo ainda vivem sem acesso regular à água potável – só no Brasil , são mais de 30 milhões de pessoas.

E o que podemos fazer?

É hora de reconhecer e refletir sobre o impacto que nossas escolhas digitais causam ao planeta.

Como usuários, podemos:

· Fazer uso mais consciente da IA

· Cobrar transparência ambiental das big techs

· Exigir políticas sustentáveis e reutilização da água

Cada clique conta. Tecnologia e sustentabilidade devem caminhar juntas.

Referências bibliográficas:

- ZHOU, Shaolei. Making AI Less “Thirsty”: Uncovering and Addressing the Secret Water Footprint of AI Models. University of California, Riverside, 2023. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2304.03271.

- POPKEN, Ben. ChatGPT and other AI tools may use as much water as entire countries, experts say. NBC News, 10 mai. 2023. Disponível em: https://www.nbcnews.com/tech/ai/chatgpt-ai-water-use-climate-change-rcna80606.

- AGÊNCIA BRASIL. Falta de acesso à água potável atinge 33 milhões de pessoas no Brasil. Brasília, 21 mar. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-03/falta-de-acesso-agua-potavel-atinge-33-milhoes-de-pessoas-no-brasil.

- HERN, Alex. The environmental cost of artificial intelligence. Nature, 2023. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-023-01214-7.

- HEAVEN, Will Douglas. The hidden environmental cost of ChatGPT. MIT Technology Review, 29 mar. 2023. Disponível em: https://www.technologyreview.com/2023/03/29/1069990/the-hidden-environmental-cost-of-chatgpt/.