ARTIGO PSJ
Governança Corporativa nas Empresas Familiares: um Caminho para a Sustentabilidade e o Crescimento
1. Introdução | 2. Empresas Familiares no Brasil | 3. O que é Governança Corporativa? | 4. Importância da Governança Corporativa em Empresas Familiares | 5. Práticas para a Implantação da Governança Corporativa nas Empresas Familiares. | 6. Conclusão.
1. Introdução
É certo que, na economia atual, a governança corporativa tem se mostrado cada vez mais um pilar essencial para o sucesso e a sustentabilidade de empresas de todos os tipos e tamanhos.
De forma simplificada, a governança corporativa é um conjunto de práticas e processos pelos quais uma empresa é dirigida e controlada, alinhando os interesses dos sócios, promovendo a transparência, a responsabilidade e a equidade na administração da companhia. Em um ambiente empresarial cada vez mais complexo e globalizado, a adoção de boas práticas de governança é essencial para o valor e o sucesso da organização.
Nesse contexto, as empresas familiares se destacam pela evidente relevância da governança corporativa, uma vez que enfrentam desafios únicos, como a sucessão e a convivência entre interesses familiares e empresariais.
Neste artigo, exploraremos o papel e a importância da governança corporativa na esfera das empresas familiares, abordando suas especificidades e práticas recomendadas para garantir sua longevidade.
2. Empresas Familiares no Brasil
As empresas familiares desempenham um papel vital na economia brasileira. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 90% dos negócios constituídos no país estão sob controle familiar, além de responderem por aproximadamente 65% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e 75% dos empregos gerados no Brasil.
Todavia, apesar de sua relevância econômica, as empresas familiares enfrentam desafios significativos e específicos para que consigam alcançar o sucesso e a longevidade. Estatísticas globais apontam que apenas um terço dessas organizações conseguem passar para a segunda geração, e menos de 15% chegam à terceira.
Tais números refletem a dificuldade de conciliar a gestão empresarial e as relações familiares. É nesse cenário que a governança corporativa emerge como uma solução capaz de mitigar esses desafios e promover a sustentabilidade da empresa ao longo das gerações.
3. O que é Governança Corporativa?
Governança Corporativa, de acordo com o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa - IBGC, é o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, o que contribui para sua longevidade. Ela envolve os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas.
Os princípios básicos de governança corporativa permeiam, em maior ou menor grau, todas as práticas do Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. Saber adotar adequadamente a governança resulta em um clima de confiança tanto internamente quanto nas relações com terceiros. São eles:
a) Transparência: refere-se à disponibilização de informações verdadeiras, tempestivas, coerentes, claras e relevantes para todas as partes interessadas, independentemente de serem positivas ou negativas, não se limitando àquelas exigidas por leis ou regulamentos. Essas informações devem abranger não apenas o desempenho econômico-financeiro, mas também aspectos ambientais, sociais e de governança. A promoção da transparência favorece o desenvolvimento dos negócios e estimula um ambiente de confiança nas relações com todas as partes envolvidas;
b) Equidade: significa tratar todos os sócios e demais partes interessadas de maneira justa, levando em consideração seus direitos, deveres, necessidades, interesses e expectativas, sejam eles individuais ou coletivos. A equidade envolve uma abordagem diferenciada conforme as particularidades de cada relação com a organização, e é guiada por princípios de justiça,respeito, diversidade, inclusão, pluralismo e igualdade de direitos e oportunidades;
c) Prestação de contas (Accountability): envolve o exercício de funções com diligência, independência e com vistas à geração de valor sustentável a longo prazo. Implica assumir a responsabilidade pelas consequências de atos e omissões, prestando contas e forma clara, concisa, compreensível e em tempo adequado. Além disso, os responsáveis devem estar cientes de que suas decisões podem impactar não apenas sua própria responsabilidade, mas também a organização, suas partes interessadas, bem como o meio ambiente e
d) Responsabilidade Corporativa: refere-se ao compromisso contínuo com o aprimoramento da cultura ética na organização, evitando decisões sob a influência de conflitos de interesses. Isso exige coerência entre o discurso e a ação, lealdade à organização e atenção ao bem-estar de suas partes interessadas, da sociedade em geral e do meio ambiente.
4. Importância da Governança Corporativa em Empresas Familiares
Conforme mencionado ao longo deste artigo, empresas familiares possuem uma estrutura de gestão e controle mais complexa do que as demais empresas, haja vista que envolvem relacionamento entre parentes, conflitos de interesses e valores, sentimentos, sucessão e ordem de liderança decorrente da transição de gerações.
O ambiente familiar, com laços emocionais, muitas vezes influencia diretamente a tomada de decisões societárias, o que pode prejudicar o desempenho do negócio e gerar conflitos. Além disso, a sucessão é um dos maiores desafios desse tipo de organização, uma vez que envolve a passagem de controle para membros da família, que nem sempre estão preparados para assumi-lo.
Sendo assim, quanto mais complexa a empresa, maior a necessidade de uma estrutura robusta de governança corporativa. Diante das peculiaridades que permeiam as empresas familiares, a governança se faz especialmente necessária, pois estabelece mecanismos de separação entre as questões familiares e empresariais, reduzindo os riscos de conflitos e profissionalizando a gestão. O estabelecimento de regras claras para a sucessão, por exemplo, pode evitar disputas entre herdeiros e garantir a continuidade da empresa.
5. Práticas para a Implantação da Governança Corporativa nas Empresas Familiares
Diversos são os meios para que as boas práticas de governança sejam implementadas na realidade da empresa familiar. Alguns deles incluem:
a) Criação de um Conselho de Administração: a criação de um conselho com membros externos à família pode proporcionar uma visão imparcial e objetiva, além de auxiliar na definição de estratégias e na fiscalização das decisões dos gestores;
b) Assembleia Familiar: é importante a existência de uma reunião com frequência regular onde os integrantes da família possam tratar sobre questões pessoais que tenham a capacidade de refletir na empresa. A título de exemplo, pode-se mencionar temas relacionados a comorbidades e problemas de saúde, relacionamentos e regime de casamento adotado pelos familiares, divórcio e sucessão, carreira dos herdeiros e problemas financeiros enfrentados pelos familiares;
c) Comitês: foros específicos compostos por membros eleitos pela Assembleia Familiar para tratarem de assuntos predefinidos são uma alternativa para o bom funcionamento da empresa. Em regra, os Comitês são criados com função e tempo determinados, como, por exemplo, comitê para treinamento de herdeiros, comitê para interação entre os herdeiros, sucessores, familiares e funcionários, dentre outras inúmeras possibilidades;
d) Elaboração de um Acordo de Sócios: um acordo de sócios é fundamental para alinhar os interesses de todos os envolvidos e prevenir conflitos futuros. Esse documento deve abordar temas como a sucessão, a política de distribuição de dividendos, as regras de entrada e saída de sócios e a responsabilidade de cada um na gestão da empresa;
e) Planejamento Sucessório: é essencial que as empresas familiares planejem de forma antecipada e criteriosa a transição de liderança para garantir a continuidade dos negócios. O processo de sucessão deve envolver a capacitação dos sucessores e, quando necessário, a profissionalização da gestão, com a contratação de executivos externos;
f) Separação entre Propriedade e Gestão: a distinção entre os papéis de sócios e gestores é crucial para o bom funcionamento da empresa. Nem sempre os membros da família possuem as habilidades necessárias para a gestão e a contratação de gestores externos pode ser uma solução eficiente; e
g) Código de Conduta e Ética: a criação de um código de conduta ajuda a alinhar comportamentos e expectativas dentro da organização, além de fortalecer a cultura de integridade e respeito mútuo entre os colaboradores e gestores.
6. Conclusão
A governança corporativa é uma ferramenta essencial para as empresas familiares que desejam garantir sua perenidade e sucesso ao longo das gerações. A adoção de práticas de governança adequadas permite a separação das esferas familiar e empresarial, reduzindo conflitos e aumentando a profissionalização da gestão. Além disso, facilita o processo de sucessão, assegurando que a transição de liderança ocorra de forma ordenada e sem prejudicar o desempenho da empresa.
Em um cenário de crescente competitividade e complexidade econômica, as empresas familiares que adotam boas práticas de governança estão mais bem preparadas para enfrentar desafios, explorar oportunidades de crescimento e garantir sua longevidade, mantendo-se como pilares do desenvolvimento econômico e social do Brasil.
Todavia, os líderes devem ter em mente que a adoção de boas práticas de governança exige um trabalho delicado, reforçado e contínuo, tendo em vista a complexidade e a mutação das relações
interpessoais, o crescimento da empresa e as necessidades específicas. Dessa forma, é importante contar com uma equipe profissional capacitada para realização e acompanhamento de uma governança corporativa estruturada, capaz de refletir a empresa e os familiares.
Referências Bibliográficas:
INSTITUTO BRASILEIRO DE GOVERNANÇA CORPORATIVA (IBGC). Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa. 5. ed. São Paulo, SP: IBGC, 2015. Disponível em: < https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4382648/mod_resource/content/1/Livro_Codigo_Melhores_Praticas_GC.pdf>
< https://istoedinheiro.com.br/sucessao-o-maior-desafio-das-empresas-familiares/>



