ARTIGO PSJ

Legal Operations: Gestão Moderna dos Serviços Jurídicos

Portela Soluções Jurídicas

Escritório de Advocacia

1. Introdução | 2. Conceito Legal Operations | 3. Exemplos Práticos de Aplicação de Legal Ops | 4. Ferramentas Disponíveis, Desafios e Implementação Faseada | 5. O Profissional Híbrido de Legal Ops: Formação Multidisciplinar e Competências-chave |6. Conclusão

1. Introdução

Nos últimos anos, a gestão de serviços jurídicos – tanto em departamentos jurídicos internos de empresas quanto em escritórios de advocacia – tem passado por profundas transformações.

Os tradicionais controles administrativos focados em prazos, rotinas operacionais, finanças e organização de agendas deram lugar a práticas guiadas por dados, tecnologia e inovação, orientadas para a alta performance. Assim, muito embora referidos controles continuem sendo imprescindíveis, mudou a forma de executá-los e eles vêm sendo cada vez mais aprimorados e voltados para uma atuação estratégica.

Aplicar ferramentas e métricas de gestão empresarial à prestação de serviços jurídicos tornou-se um importante diferencial e pavimentou o caminho para o que hoje chamamos de Legal Operations (Legal Ops), ou Operações Legais.

2. Conceito de Legal Operations

A administradora e especialista em gestão na advocacia, Juliana Perin define:

“Legal Operations, ou Legal Ops - uma abordagem estruturada que aplica práticas de gestão empresarial ao universo jurídico, com o objetivo de tornar a operação mais eficiente, estratégica e orientada por dados. Trata-se de uma área multidisciplinar que atua como suporte à atividade jurídica, otimizando processos, integrando tecnologia, organizando fluxos e promovendo uma cultura de performance”.

Por seu turno, a pesquisa “Panorama do Legal Operations no Brasil/2025” (CEPI-FGV) demonstra que o Legal Ops pode ser compreendido de três maneiras: (i) como área formal existente na organização; (ii) como um conjunto de atividades e funções; (iii) como forma de agir ou cultura organizacional. Assim, mesmo sem uma área dedicada, os escritórios de advocacia e os departamentos jurídicos internos das empresas podem adotar práticas de Legal Ops por meio da automação de tarefas, adoção de sistemas eficientes e definição de indicadores de desempenho, centrados no tripé Pessoas – Processos - Tecnologia.

3. Exemplos Práticos de Aplicação de Legal Ops

O alto grau de judicialização e a busca por eficiência têm levado escritórios e departamentos jurídicos a acelerar a adoção de Legal Ops no Brasil, mas, atenção, porque as práticas não se restringem aos processos judiciais. A seguir, exemplos ilustram o amplo espectro de aplicação do Legal Operations:

Para o Contencioso Judicial -> implementação de sistemas que permitam (i) a captura automática de novos processos diretamente dos sites dos tribunais; (ii) atualização diária e automática dos andamentos processuais; (iii) captura de documentos dos autos sem necessidade de ciência manual; (iv) leitura e organização de publicações em Diários Oficiais de Justiça; (v) emissão de relatórios padronizados para clientes.

Para a Área de Contratos -> utilização de plataformas automatizadas para realizar todo o Ciclo de Vida dos Contratos (CLM – Contract Lifecycle Management), englobando: (i) a criação da minuta a partir de requisições padronizadas, inclusive com base em minutas-padrão previamente elaboradas; (ii) revisão da minuta sob a forma de documento colaborativo; (iii) workflow de aprovação; (iv) assinatura digital, eletrônica ou híbrida, da versão aprovada pelos contratantes; (v) armazenamento em nuvem, e de forma organizada, de todo o acervo de contratos produzido; (vi) gestão de sua execução; (vii) controle para renovação, aplicação de reajustes.

Utilização de Inteligência Artificial por Diversas Áreas -> com base na Inteligência Artificial generativa, proceder à criação de assistentes virtuais (robôs) especializados em determinadas tarefas que possam auxiliar nas demandas do dia a dia, como, exemplificativamente: (i) elaboração de relatórios de processos judiciais; (ii) criação de minutas de peças processuais; (iii) análise pormenorizada de dossiê de documentos para verificar se atendem a determinado checklist pré-estabelecido como ocorre, por exemplo, em casos de procedimentos licitatórios e de due diligence etc.

Atente-se, inclusive, para a possibilidade de camada automatizada de verificação (segunda checagem), além de revisão humana obrigatória, registros de auditoria e políticas de uso de dados.

Legal Design e Visual Law: o Design Thinking aplicado ao Direito -> o Legal Design é uma abordagem que incorpora conceitos e métodos do design thinking para o desenvolvimento de soluções jurídicas mais claras, funcionais e centradas no usuário. Seu propósito é unir conhecimento jurídico, gestão e design para criar serviços, produtos e comunicações que atendam de forma mais efetiva às necessidades do cliente. A metodologia segue etapas estruturadas: empatia para compreender a experiência do usuário; definição do problema; ideação de alternativas; prototipagem; testes e implementação.

Dentro desse movimento, o Visual Law atua como ferramenta de comunicação, utilizando recursos visuais — como infográficos, fluxogramas, ícones e elementos de UX/UI (User Experience/User Interface) — aliados à linguagem simples e à arquitetura da informação. O resultado são documentos, contratos, peças processuais ou relatórios mais intuitivos, que facilitam a compreensão e a tomada de decisão, sem comprometer a precisão técnica.

Ao aplicar o Design Thinking na prática jurídica, seja na elaboração de um contrato visualmente estruturado ou na criação de um fluxo processual interativo, promove-se não apenas a clareza da mensagem, mas também a experiência do usuário. Essa abordagem, quando integrada ao método de Legal Operations, amplia a eficiência na prestação dos serviços, reforçando a conexão entre tecnologia, processos e pessoas.

Jurimetria -> significa a aplicação de métodos estatísticos ao Direito para mapear padrões e tendências em grandes bases de decisões judiciais e de outros dados jurídicos. A técnica fornece previsibilidade de resultados e sustenta decisões mais racionais ao realizar análises preditivas que projetam o futuro a partir de dados passados. Embora a utilização de tais métodos já fosse possível, a combinação de algoritmos avançados e bancos de dados massivos elevou o nível de precisão e alcance das previsões. Para escritórios de advocacia, a jurimetria pode proporcionar, entre outros usos:(i) precificação de honorários baseada na probabilidade de sucesso e nos valores históricos de condenação, aumentando a transparência junto aos clientes; (ii) seleção de teses e elaboração de peças processuais alinhadas ao entendimento de cada órgão julgador, por reconhecer os padrões de decisão; (iii) identificação de processos nos quais a celebração de acordo se mostra financeiramente mais vantajosa, diante de altas probabilidades de perda.

Criação e Monitoramento de Indicadores de performance jurídica (KPIs – Key Performance Indicators) -> definição de métricas para aferir, objetivamente, se o departamento jurídico ou o escritório de advocacia está entregando valor, bem como identificar onde é preciso intervir para ganhar eficiência, reduzir riscos ou melhorar a experiência do cliente interno/externo. Os indicadores têm o condão de transformar simples percepções em dados concretos, dando sustentação a decisões de alocação de pessoas, implementação de tecnologias, mudanças de processos.

4. Ferramentas Disponíveis, Desafios e Implementação Faseada

A identificação de ferramentas de Legal Ops mais adequadas para cada caso concreto não é trivial. Surgem desafios como: (i) escolher o sistema que realmente atenda às necessidades do escritório ou do jurídico interno; (ii) custo de implementação e de manutenção; (iii) soluções muito engessadas versus plataformas flexíveis que exigem customização – e a dificuldade de encontrar quem as personalize; (iv) suporte técnico pós-venda insuficiente ou impessoal; (v) adoção gradual pelas equipes, dada a tendência ao status quo (apego a rotinas consolidadas), exigindo ações de gestão da mudança e capacitação.

Casos práticos mostram que orçamento, patrocínio das lideranças e disputa de tempo com atividades do dia a dia costumam ser obstáculos críticos, demandando planejamento faseado, acompanhamento, comunicação ativa, disciplina e muita persistência.

Ao lado dos inúmeros softwares “de prateleira” disponíveis no mercado, é possível desenvolver soluções in house quando há equipe de TI dedicada — cenário mais comum em grandes empresas com maior capacidade de investimento.

Mesmo que não exista um modelo único, porque cada organização combina ferramentas, processos e pessoas conforme o seu contexto, se pudéssemos indicar um “Miniguia de Legal Ops” para iniciar o processo, seria o seguinte: (i) mapear 2 a 3 fluxos prioritários; (ii) selecionar 3 KPIs simples (Ex: prazo, aging, valores); (iii) prototipar rápido em planilha/BI com uma equipe piloto e ajustar; (iv) escolher ferramenta segundo critérios objetivos (o que oferece, integrações, segurança, eficácia do suporte, custo) descritos sob a forma de um checklist por meio do qual seja possível comparar os diversos sistemas; (v) implantar por fases; (vi) gerenciar a mudança (treinamento, envolvimento das lideranças, comunicação dos ganhos).

5. O Profissional Híbrido de Legal Ops: Formação Multidisciplinar e Competências-chave

A pesquisa conduzida pelo CEPI-FGV Direito SP mostra que o Legal Operations é, antes de tudo, um campo interdisciplinar. As organizações ouvidas indicaram profissionais formados em Direito (91%), Administração (55%), Ciência de Dados (43%), Engenharia, Economia, Contabilidade, Marketing e Jornalismo.

A maioria dos respondentes (24 organizações) declarou não exigir diploma em Direito para todas as posições, restringindo essa exigência apenas a funções específicas. Mesmo assim, o conhecimento jurídico segue sendo considerado fundamental para o desempenho da área.

O relatório descreve o(a) profissional de Legal Ops como “híbrido(a)”: alguém que alia competências técnicas do Direito a habilidades de gestão, tecnologia e socioemocionais, dialogando com outras áreas do conhecimento. Essa combinação permite ao time de Legal Ops atuar como ponte entre o jurídico e a estratégia do negócio, potencializando eficiência, governança e inovação.

Em consonância com essa visão multidisciplinar, o Portela Soluções Jurídicas - PSJ tem implementado, de maneira paulatina, o framework de Legal Operations, integrando tecnologia, métricas e gestão colaborativa à prática jurídica tradicional.

6. Conclusão

A adoção de práticas de Legal Operations representa um avanço estratégico na forma como escritórios de advocacia e departamentos jurídicos internos planejam, executam, monitoram e entregam seus serviços.

Em um cenário em que as realidades se transformam — transformam-se muito e em velocidade sem precedentes — integrar pessoas, processos e tecnologia de forma inteligente é essencial para manter a eficiência, a qualidade e o valor agregado para clientes, parceiros e colaboradores.

Mais do que uma tendência, o Legal Ops é um caminho para transformar a gestão jurídica e preparar o setor para os desafios de um mercado cada vez mais dinâmico, exigente e digital.

Referências Bibliográficas:

- E-book, A nova era da gestão jurídica. O modelo Legal Operations nas sociedades de advogados. Cases reais de Implantação do Método. 3ª Edição. Apoio: CESA; FENALAW. Colaboração: Trench, Rossi, Watanabe e Oneda e Marzari Advocacia. Disponível em: Baixe o E-Book: Nova Era da Gestão Jurídica. Acesso em: 22 jul.2025.

- MIGALHAS. “Legal Operations – FGV Direito SP aponta crescimento de legal operations no setor jurídico”. Disponível em: FGV Direito SP aponta crescimento de legal operations - setor jurídico - Migalhas. Acesso em 15 jul.2025.

- FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS SP. Centro de Pesquisa e Inovação - CEPI. Panorama do Legal Operations no Brasil. Disponível em: Panorama do Legal Operations no Brasil. - Pesquisar. Acesso em: 15 jul.2025.

- FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS. “Pesquisa mostra que área de legal operations cresce no mercado jurídico brasileiro”. Disponível em: Pesquisa mostra que área de legal operations cresce no mercado jurídico brasileiro. Acesso em: 15 jul.2025.

- PERIN, Juliana. “A Evolução da Gestão de Escritórios de Advocacia: Da Gestão Tradicional para Legal Ops, na Prática”. Disponível em: A Evolução da Gestão de Escritórios de Advocacia: Da Gestão Tradicional para Legal Ops, na Prática - Pesquisar. Acesso em: 15 jul.2025.